Constantinopla caiu em poder dos turcos no dia 29 de maio de 1453. Quando isso ocorreu, embora o Império Bizantino já tivesse perdido muito de sua antiga glória, ainda assim, a queda desse simbólico bastião da cristandade diante das forças do Islã, provocou um grande choque. Mas, apesar da tristeza pela derrota, os próprios habitantes da cidade se conformaram pois era melhor cair em poder dos turcos e manter a integridade de sua fé Ortodoxa, do que pagar o preço exigido pelos cristãos ocidentais, isto é, submeterem-se ao Papa.
Entretanto, o governo de um tão vasto território de população não muçulmana constituía um problema para os sultões turcos. Os otomanos fizeram face a essa dificuldade separando a população em uma espécie de feudos estabelecidos, não em bases étnicas – mesmo porque não se tinha ainda muita consciência das diferenças étnicas – mas com base no credo religioso. A maior autoridade administrativa era constituída pelo sultão auxiliado por um primeiro ministro, o vizir, e por seus ministros, os efendes.
Tendo decidido fixar a capital do império em Constantinopla, o sultão chamou de volta os antigos habitantes da cidade e, para convencê-los a retornar, fez-lhes algumas concessões. Uma de suas primeiras ações foi colocar Genádio II Scholarios, conhecido pela sua posição contrária à união da Igreja Ortodoxa à ocidental, no trono do patriarcado.
O Patriarca gozava de uma autoridade bastante grande, não só em termos religiosos, mas também em relação aos temas leigos. Em um certo sentido, era ainda maior do que a que gozavam os patriarcas durante o Império Bizantino. Em troca desses privilégios, os patriarcas tinham por obrigação manter seus paroquianos fiéis à autoridade turca.
Quando respeitavam as tradições islâmicas, esses senhores gozavam de uma relativa autonomia no trato dos assuntos religiosos, entretanto, estavam sempre em desvantagem face a um muçulmano. Não podiam usar armas, nem prestar serviço militar e, em vez disso, tinham que pagar um imposto especial. Não podiam se casar com muçulmanas e, diante de qualquer tribunal, sua palavra valia menos do que a de um muçulmano. Mas o mais cruel dos impostos a que estavam obrigados os cristãos era a prática do “pedomázoma”: as famílias cristãs eram obrigadas a, de tempos em tempos, entregar dez por cento dos seus filhos, os mais bonitos e inteligentes, à autoridade turca. Essas crianças eram levadas para a Turquia, educadas como muçulmanos e serviam na tropa de elite do exército otomano.
Durante os quatrocentos anos do domínio turco, a Igreja Ortodoxa se constituiu no único ponto de referência dos cristãos no que diz respeito à identidade étnica. A Igreja nada pôde fazer para evitar a imposição do turco como língua oficial, entretanto, desempenhou um papel fundamental na manutenção da cultura pelo fato de continuar usando o grego em suas liturgias.
Entretanto, a atuação dos padres ortodoxos não se limitou ao uso da língua nas liturgias, construíram e mantinham escolas onde ensinavam a seus alunos, adultos e crianças, a lerem e a escreverem sua língua materna através da leitura dos textos religiosos. Esta atuação da Igreja parece estar na origem da história do, assim chamado, “κρυφό σχολείο” (crifó skolío), literalmente, escolas secretas, que falam de uma época em que as escolas funcionavam secretamente porque os gregos temiam os turcos.
Durante os séculos XVI e XVII, a maior preocupação dos gregos era, evidentemente, com sua própria sobrevivência. No entanto, no decurso do século XVIII, começaram a surgir sinais de debilidade da autoridade otomana, o que demonstrava claramente que os turcos não eram invencíveis. E essa constatação da possibilidade de derrota das forças turcas fez com que surgisse, entre os gregos, a esperança da libertação.
Os indícios da debilidade da força turca se manifestaram tanto no terreno externo como no interno. Externamente, temos a guerra Rússia-Turquia, com a vitória da Rússia e sua conseqüente exigência de exercer protetorado sobre todos os Cristãos Ortodoxos do Império Otomano. No plano interno, temos, principalmente, o episódio de Ali Pachá cuja riqueza e poder eram tão grandes que ameaçavam a autoridade da Porta otomana. Foi a decisão turca de eliminar Ali Pachá, cuja autoridade tanto temiam, o que determinou o momento do início da revolução armada.
De crucial importância para o sucesso do movimento revolucionário foi a profunda transformação sofrida pela sociedade grega no decorrer do século XVIII. Com a debilitação de sua força armada, os turcos tiveram que recorrer a diplomatas capazes de negociar com seus inimigos vitoriosos, para tentar minimizar os efeitos das derrotas. Como, em seu próprio meio, não contavam com pessoas com essas qualidades, tiveram que apelar para os Fanariotes, grupo de gregos que tiraram seu nome do bairro de Constantinopla – Φανάρι, Farol – onde se situava o patriarcado ecumênico.
Esses Fanariotes, homens cultos que eram, patrocinaram o desenvolvimento da educação e da cultura de um modo geral, atraíram, para suas academias, professores e alunos de todos os países ortodoxos. Embora não estivessem interessados na emergência de um movimento nacional grego de libertação, já que tinham um grande prestígio e poder na burocracia otomana, quando, finalmente, irrompeu o movimento de 1821, os revolucionários puderam contar com um grupo de pessoas experientes tanto no trato político como no diplomático.
Um outro importantíssimo fator foi o aparecimento de uma próspera classe média mercantil que, desencorajada de investir em um império onde predominavam a arbitrariedade e a rapacidade, desenvolveram um ativo comércio com a Hungria, com a Transilvânia, com a monarquia dos Habsburgo e com a Rússia. Em pouco tempo, o grego se tornou a língua comercial dos Balcãs e um desafio à predominância comercial da Inglaterra, da França e da Alemanha.
O surgimento dessa classe teve duas importantíssimas conseqüências: em primeiro lugar, levou os gregos a entrarem em contato com as sociedades européias ocidentais e suas idéias iluministas e, em segundo lugar, forneceram os meios financeiros necessários ao renascimento intelectual verificado entre os gregos no fim do século XVIII e início do XIX. O fato da maioria dos centros escolares gregos estarem situados em Smirna (Σμύρνη), Xios (Χίος) e Aivalí (Αϊβαλί), todos grandes centros comerciais, não foi mera coincidência.
Paralelamente a esse desenvolvimento comercial, surge uma fortíssima marinha mercante baseada, principalmente, nas ilhas de Hidra (Ύδρα), Psará (Ψαράς) e Spétses (Σπέτσες). Devido aos constantes ataques de piratas, os navios comerciais estavam fortemente armados e puderam ser usados como navios de guerra durante a Revolução de 21. Além disso, a reserva de um grande número de marinheiros treinados se mostrou, é lógico, muito útil quando estourou a revolução e os navios de guerra gregos se tornaram uma fortíssima arma contra os turcos.
Sob os auspícios desses comerciantes, muitos jovens foram estudar na Europa Ocidental e lá não só entraram em contato com as idéias libertárias da Revolução Francesa, como também puderam constatar com que admiração os europeus encaravam a língua e a cultura da Grécia antiga despertando-lhes, assim, o orgulho pelo passado. Uma das mais proeminentes figuras nessa redescoberta do glorioso passado foi Adamantios Korais (Αδαμάντιος Κοραϊς) que, com o patrocínio de comerciantes da Ioánina (Ιωάννινα), publicou toda uma série de livros dos clássicos gregos. Com esse orgulho pelo passado, começou um outro problema: qual língua poderia expressar melhor a glória do passado? Alguns achavam que a língua do povo, adimotikí (δημοτική), poderia perfeitamente ser usada como dialeto culto, outros achavam que a katarévousa (καθαρεύουσα), língua pura, por ser aquela que mais se aproximava do dialeto ático, era a que deveria ser adotada.
Por volta do fim do século XVIII, Rigas Velestinlis (Ρήγας Βελεστινλής) ou Rigas Feréos (Ρήγας Φεραίος) como era conhecido, começou a pôr em prática um plano de revolta armada contra os turcos. Entretanto, foi traído, preso e enforcado em Belgrado. Embora, até certo ponto, a empreitada de Rigas Feréos possa ter redundado em fracasso, pelo menos algo teve de positivo, serviu de inspiração para os subseqüentes movimentos nacionalistas gregos.
Seguindo o exemplo de Rigas Feréos, três jovens gregos membros da diáspora mercantil, Εμμανουήλ Ξάνθος (Emanuil Ksánthos),Νικόλας Σκουφάς(Nikolas Skufás) e Αθανάσιος Τσακάλωφ (Atanasios Tsakálof), fundaram, em Odessa, uma sociedade secreta à qual deram o nome deΕταιρεία των Φίλων, ou Φιλική Εταιρέια (Sociedade de Amigos) com o fim específico de preparar uma revolta armada contra os turcos.
Para ser aceito como membro da Filikí Etería, o candidato tinha que passar por um verdadeiro ritual muito aos moldes daquele praticado pelos maçônicos. Tinham que jurar que não revelariam a ninguém a existência da Sociedade e que seguiriam sempre as ordens recebidas. Os membros da Filikí Etería não se conheciam e se comunicavam somente através de códigos. Com o passar do tempo, aumentou em muito o número de seus membros sendo que os primeiros a se filiarem foram os kléftes, em seguida vieram os comerciantes, os padres e outros.
O conde Ιωάννης Καποδίστριας (Ioanis Kapodístrias), devido à grande experiência adquirida como Ministro do Exterior de Alexandre I, da Rússia, foi convidado a liderar a Sociedade. Como declinasse do convite por não acreditar no sucesso da empreitada, foi chamado, para o mesmo cargo, Αλέξανδρος Υψηλάντης (Aleksandros Ipsilandis), que também tinha servido sob Alexandre Ι , mas que, no entanto, não possuía a mesma experiência política do outro. Se aproveitando de uma ocasião que, imaginava, lhe seria favorável, isto é, o ataque de uma grande parte do exército turco contra Ali Pachá, Ipsilandis entrou em território grego, vindo da Rússia, mas foi derrotado na batalha deΔραγατσάνιο (Dragatsánio), capturado e enviado para o território dos Habsburgos, onde morreu na prisão.
Enquanto tudo isso acontecia no norte da Grécia, o Peloponeso estava em pé de guerra com a chegada do enviado da Filikí Eteria, o arcebismo Γρηγόριος Δικαίος, ο Παπαφλέσας (Grigórios Dikéos, o Papaflessa) que, anunciando que estava tudo preparado para a revolta, reuniu um grande número de pessoas em torno de si. Além disso, já há algum tempo, tinha chegado à cidade de Máni o chefe dos kléftes, Θεόδωρος Κολοκοτρώνη (Teodoro Kolokotroni). Tinha chegado o grande momento!
O grupo dos kléftes (κλέφτες) era formado por homens que, descontentes com o domínio turco, abandonavam a cidade e se escondiam nas montanhas de onde desciam para atacar os ricos, principalmente os cobradores de impostos. Foram extremamente importantes na Revolução de 21 pois, com a experiência militar adquirida nas montanhas e com as armas que tinham conseguido, constituíram o braço armado do movimento da libertação grega.
O primeiro tiro foi dado na Arcádia por Νικόλαος Σολιώτης (Nicolau Soliótis) no dia 14 de março, contra um coletor de impostos. A partir daí, as coisas se desencadearam com grande rapidez. No dia 23, Kolokotroni e Papaflessa, à frente de um exército formado por maniates, libertaram Kalamata. Na Grécia Continental, o kléftis Δημήτριος Πανουργιάς (Dimitrios Panuriás) ataca Ánfissa e o padre Αθανάσιος Διάκος (Atanasios Diakos), a Livádia. No dia 26, o religiosoΠαλλαιών Πατρών Γερμανός (Germano das Antigas Patras) fixa o estandarte da revolução na praça central de Patra diante do qual vêm jurar os oficiais. Em pouco tempo, a revolução se espalhou por toda a Grécia Continental.
A primeira ilha a se levantar, chefiada por Λασκαρίνα Μπουμπουλίνα (Laskarina Bubulina) - uma das maiores, se não a maior, figura feminina da Revolução de 21 – foi Spétses. A ela se seguiram todas as outras.
Ao saber do movimento revolucionário dos gregos, o sultão mandou prender, e enforcar, o patriarca Gregório V por não ter cumprido sua parte no trato, isto é, não ter sido capaz de manter os cristãos fiéis à autoridade turca.
Com a libertação da Grécia Continental do domínio turco, era necessário que se constituísse um governo central que pudesse comandar as próximas ações. Aqueles que tinham governado as diversas províncias durante o tempo do domínio turco achavam que o natural seria que continuassem nos cargos que já ocupavam. Entretanto, os oficiais que tinham tomado parte ativa na luta, e que eram tão admirados pelo povo, também queriam sua parte de poder. E foi assim que, numa época em que a Grécia precisava tanto de paz para que pudesse continuar seu caminho em busca da libertação total, ao invés disso, se atiraram em uma guerra civil.
Enquanto os gregos lutavam entre si, os turcos, que não se conformavam com a perda dessa grande parte da Grécia, se organizavam para a reação. Como o sultão sabia que, sozinho, não conseguiria nada, solicitou a ajuda do pachá do Egito, Mohamet Ali. As forças egípcias abafaram a revolta em Creta, em Casso e no Peloponeso e as turcas em Psará e, ambas unidas, em Hidra. Os turcos só não conseguiram submeter a ilha de Samos graças à perícia naval deΑνδρέας Μιαούλης (Andreas Miaulis).
A causa grega triunfou finalmente graças à intervenção das Grandes Potências européias que, sendo favoráveis à formação de um Estado grego, se ofereceram como mediadoras do conflito. Como os turcos não aceitassem, França, Inglaterra e Rússia mandaram seus navios para Navarino onde, no dia 20 de outubro de 1827, destruíram a frota egípcia.
A intervenção das Grandes Potências foi realmente providencial no sentido de assegurar à Grécia um estado independente, embora deixasse para mais tarde o estabelecimento de suas fronteiras. Esse processo foi seguido de perto por Ioánis Kapodístrias, eleito o primeiro governante da Grécia pela Assembléia de Troizene.
Além de supervisionar a fixação das fronteiras, também se empenhou em dar uma infra-estrutura de Estado a um país destruído pela guerra. Entretanto, seu estilo paternalista e autoritário desagradou a alguns e Kapodistras acabou assassinado em Náuplia em outubro de 1831.
A existência da Grécia como país independente recebeu reconhecimento formal com o tratado de 1832 assinado entre a Bavária e as Grandes Potências. Muito caracteristicamente, os próprios gregos não tomaram parte nesse tratado. Mas, agora, a Grécia, o primeiro país a se libertar do jugo otomano, pelo menos formalmente se tornava um país independente. Entretanto, suas fronteiras ainda não estavam totalmente estabelecidas, o que só irá acontecer em 1947 com a reincorporação do Dodecaneso.
Depois do assassinato de Capodístrias, as Grandes Potências escolheram o príncipe da Bavária, Otto, como o primeiro rei da Grécia, onde chegou em janeiro de 1833. Como Otto era menor de idade, durante dois anos, a Grécia foi governada por um triunvirato.
Os bávaros tomaram medidas drásticas para a formação do Estado grego e, sobretudo, para a manutenção da ordem. O exército foi organizado em cavalaria e artilharia e, para facilitar a administração, o país foi dividido em dez províncias e as províncias em municípios. Foi nesta ocasião que a Igreja da Grécia se tornou autônoma.
Entretanto, para os gregos, Otto e, principalmente, os bávaros que governavam em seu lugar, eram estrangeiros. A maioria deles nem grego falavam. Isso provocou uma grande insatisfação entre o povo que, depois de uma tão grande luta pela liberdade, queriam um governo mais justo. Os mais desgostosos com a situação eram aqueles que tinham realmente participado da luta armada pois tinham sido humilhantemente colocados de lado e muitos mesmo foram obrigados a voltar para as montanhas.
O resultado dessa insatisfação foi um movimento revolucionário com o fim de obter do rei uma constituição, o que realmente foi feito. Entretanto, esse fato não fez com que mudasse muito seu modo de governar. A insatisfação aumentou mais ainda com as notícias vindas de fora, Rússia e Turquia estavam em guerra novamente. Otto, então, partidário da Grande Idéia – isto é, o desejo dos gregos de levar suas fronteiras para onde estavam durante o período bizantino – achou que essa era a hora de tentar reaver terras gregas. Entretanto, os ingleses e franceses, aliados dos turcos, mandaram seus navios para o Pireus e obrigaram Otto a interromper sua ajuda aos russos.
Esses fatos todos, e mais o fato de não conseguir satisfazer os desejos do povo, levou a uma outra revolução, que o fez renunciar e voltar para a Bavária.
Com a renúncia de Otto, as Grandes Potências escolheram o príncipe dinamarquês Georges Gliksburg como o novo rei da Grécia, onde chegou em 1863, ostentando o título de «rei dos gregos».
A escolha do novo rei renovou a esperança do povo por dias melhores principalmente porque, junto com o rei, a Inglaterra devolveu à Grécia as ilhas do mar Iônico. Neste mesmo ano, foi votada uma nova constituição, que durou vários anos.
Em 1866, os cretenses se revoltaram contra o domínio turco de sua ilha e os gregos do continente, malgrado os problemas que atravessavam, deram apoio ao movimento. Entretanto, as Grandes Potências obrigaram a Grécia a cortar toda ajuda a Creta.
Além do problema político, o econômico também torturava a vida do povo. Tanto no tempo de Capodístrias como no de Otto, foram feitos muitos empréstimos no exterior para fazer face à reconstrução do país. Durante esta época, o governo começou a distribuir terra entre os agricultores sem terra e a tomar medidas para organizar a economia. Entretanto, a indústria não mostrava sinais de desenvolvimento, o que tornava necessária a importação de produtos estrangeiros. Como as despesas eram sempre maiores do que as receitas, o governo era obrigado a levantar empréstimos no exterior, o que tornava o país dependente, não só em termos econômicos, mas até em termos de política nacional.
Grande avanço modernizador da política nacional constituiu a decisão do rei Georges de entregar o governo ao presidente do partido majoritário no Parlamento. Na época, havia dois partidos políticos, que se alternavam no poder. Um deles, chefiado por Χαρίλαος Τρικούπης (Harílaos Trikupi), representava a modernização, uma tendência ocidentalizante na condução das coisas políticas. O outro partido, chefiado por Θεόδωρος Δεληγάννης (Teodoro Deliánis)não possuía nenhum real programa de governo, tudo o que queria era reverter todas as reformas efetuadas por seu arquiinimigo.
Em 1881, verificou-se o segundo alargamento das fronteiras gregas: o primeiro foi a devolução, feita pela Inglaterra, das ilhas do mar Iônico, e a segunda foi a cessão, pela Turquia, sob pressão da Inglaterra, da Tessália e de parte do Épiro à Grécia. Com esta anexação, a população grega cresceu, assim como aumentou a quantidade de terras cultiváveis. Enquanto Trikoupis achava que o fortalecimento do Estado era uma precondição indispensável à expansão territorial, Delianis não compartilhava absolutamente dessa idéia.
Em Creta tinha irrompido uma nova revolta contra os turcos e o governo grego mandou forças do exército e da marinha para ajudar os cretenses em sua luta. A Turquia declarou guerra contra a Grécia e invadiu a Tessália mas, sob pressão das Grandes Potências, assinou um tratado de paz e se retirou dos territórios ocupados. Entretanto, a Grécia foi obrigada a pagar uma imensa soma em “indenização de guerra” e, como não podia pagar, pediu empréstimo às Grandes Potências e estas, para concedê-lo, exigiram controle externo das despesas do governo grego.
Entretanto, na Turquia a situação também estava complicada com a revolta de alguns turcos que exigiam uma constituição e, com esse fim, organizaram uma revolta contra o sultão. Creta, se aproveitando dessa situação difícil vivida pelo dominador, se revoltou outra vez e proclamou sua união com a Grécia. Mas o governo, talvez ainda temeroso que se repetissem os acontecimentos de 1897, se manteve neutro.
Este fato só fez aumentar a irritação popular contra o governo, irritação esta que explode sob a forma de um movimento dos oficiais do Γουδί (Gudi, bairro de Atenas onde se situavam os quartéis), que obrigaram o rei a renunciar. Os oficiais chamaram um novo político que tinha se destacado nos movimentos revolucionários cretenses, Ελευθέριος Βενιζέλου (Eleftério Venizelu), que viria a ser Primeiro-Ministro da Grécia. O pessimismo trazido pela derrota de 1897, com o governo Venizelou, deu lugar a um período de euforia no qual os gregos se viram ascendendo e tirando o enfraquecido Império Otomano de sua condição de líder do Oriente Médio.
Em 1912, os países balcânicos se viram diante de mais uma ameaça turca que procurava impor a religião islâmica aos povos cristãos da região balcânica, ainda em seu poder. Face a esse novo perigo, os países cristãos se uniram e declararam guerra à Turquia, eram as primeiras guerras balcânicas. O resultado dessa guerra foi altamente favorável aos gregos que reconquistaram Θεσσαλονίκη (Salônica) e a Ιωάννινα (Ioânina), além das ilhas do mar Egeu ainda em poder dos turcos e conseguiram, finalmente, a anexação de Creta ao território grego.
Entretanto, a aliança entre os países balcânicos era um tanto fraca tendo em vista as rivalidades existentes sobre a Macedônia. A Bulgária, principalmente, estava se sentindo lesada e se voltou contra seus antigos aliados, a Grécia e a Sérvia. E assim começaram as muito rápidas segundas guerras balcânicas, junho a julho de 1913. A Bulgária foi forçada a reconhecer a divisão da maior parte da Macedônia entre a Grécia e a Sérvia. Entretanto, ainda não foi desta vez que a Grécia conseguiu a anexação do nordeste do Épiro a seu território.
Como resultado das duas guerras balcânicas, o território da Grécia, assim como sua população, praticamente dobrou, porém, não havia unidade étnica entre esses novos cidadãos gregos, problema que só seria sentido muito mais tarde. Naquela época o entusiasmo do grego, sob a liderança carismática de Venizelos, era tão grande que até parecia possível tornar reais as aspirações da Grande Idéia. Quando o rei Georges I morreu assassinado, em março de 1913, foi sugerido que seu sucessor, o príncipe Constantino, fosse coroado com o nome de Constantino XII, e não como Constantino I, como acabou sendo, para simbolizar a continuidade de Constantino XI Paleologos, o último imperador do bizâncio.
Esse período de otimismo, que caracterizou o início do governo Venizelos, deu lugar a um “cisma nacional” devido à posição assumida pelo Primeiro Ministro e pelo Rei Constantino I diante da Primeira Guerra Mundial. Enquanto Venizelos achava que a Grécia deveria apoiar os países da Tripla Aliança – Inglaterra, França e Rússia – porque esta era a posição que melhor atendia aos interesses do país, o rei, por acreditar na vitória da Alemanha, queria se manter neutro. Essa discórdia atingiu seu ponto máximo quando Venizelos estabeleceu um governo rival na Salônica que, como aliás toda a Grécia, lhe era apaixonadamente leal.
Como resultado de sua participação na Primeira Guerra Mundial, a Grécia recebeu, da Bulgária, a parte oeste da Trácia e, com o Tratado dos Servos recebeu, da Turquia, o Leste da Trácia, além das ilhas Imvrio e Tenedo e dos direitos sobre Smirna, na Ásia Menor. As diferenças entre Venizelos e o rei aumentaram de tal forma que, em 1915, este renunciou.
Em novembro de 1920, para surpresa de todos, Venizelos foi derrotado nas eleições e o rei exilado foi reconduzido ao trono, depois de um plebiscito. Nesse ínterim, a situação militar na Ásia Menor foi se deteriorando e uma ofensiva dos turcos, em 27 de agosto de 1922, resultou no incêndio de Smirna onde morreram muitos gregos e armênios e uma enorme quantidade de refugiados gregos fugiram para a Grécia. E assim terminou uma presença grega de 2.500 anos na Ásia Menor, assim como a visionária Grande Idéia.
Quando um não político, designado pelo rei para ocupar o cargo de primeiro-ministro, morreu, tomou o seu lugar o general Ιωάννης Μεταξάς (Ioanis Metaksas), da extrema direita. Aproveitando-se de uma manifestação trabalhista e de uma ameaça de greve geral, convenceu o rei a fechar o Parlamento. Embora tivesse prometido que esse fechamento seria temporário, o Parlamento só reabriu 10 anos depois.
Ao romper a Segunda Guerra Mundial, Metaxas procurou manter o país neutro mas a crescente pressão exercida por Mussolini, que queria um fácil triunfo militar para fazer face aos conseguidos por Hitler, obrigou-o a uma tomada de posição. Na madrugada do dia 28 de outubro de 1940, o embaixador italiano entregou ao Primeiro-Ministro um ultimátum de Mussolini exigindo que não reagisse contra a ocupação, por parte do exército italiano, de algumas posições militares dentro do território grego. Metaxás reagiu com o famoso ΌΧΙ (não), entusiasticamente aceito por toda a população grega. Imediatamente, as forças italianas tentaram invadir a Grécia a partir da Albânia e, não apenas foram derrotadas, como obrigadas a recuar, deixando livre para a ocupação grega o nordeste do Épiro.
Hitler, ao constatar que os italianos não tinham conseguido ocupar a Grécia, decidiu invadir o país, o que foi feito em 6 de abril de 1941. A essa invasão, seguiu-se uma terrível ocupação pelos países do Eixo, isto é, Alemanha, Itália e Bulgária. O rei Georges II e seu governo fugiram para o Egito, enquanto a população grega, devido ao confisco dos estoques alimentares, enfrentaram um terrível período de fome que resultou na morte de, pelo menos, 100.000 pessoas. Em 1943, praticamente toda a população judaica da Grécia tinha sido deportada para os campos de concentração alemães. Uma devastadora taxa de inflação só veio aumentar o sofrimento e a humilhação que a população grega vivia em seu dia-a-dia.
Ao mesmo tempo em que surge a ocupação, também aparecem os primeiros movimentos de resistência. Esses movimentos assumiram uma forma mais organizada quando, em setembro de 41, o Partido Comunista fundou a Frente Nacional de Libertação, EAM (Ελληνικόν Απελευθερωτικόν Μέτωπον/Frente Helênica de Libertação) cujo braço armado era conhecido pelas iniciais ELAS (Εθνικός Λαϊκός Απελευθερωτικός Στρατός/Exército Nacional Popular de Libertação). Embora o Partido Comunista tivesse sido colocado na clandestinidade durante o governo Metaxás, o movimento EAM/ELAS foi a mais importante força de resistência à ocupação nazista. Mas, além desse grupo, outros surgiram e, dentre estes, o mais importante, aLiga Grega Republicana Nacional (Εθνικός Δημοκρατικός Ελληνικός Σύνδεσμος) que, assim como o EAM/ELAS, se opunha à volta do rei após a libertação. Com a ajuda de uma missão militar britânica, a guerrilha realizou atos realmente espetaculares de resistência, o mais importante deles foi a destruição da ponte sobre o rio Gorgopotamos (Γοργοπόταμος) em novembro de 1942. A libertação veio, finalmente, em 12 de outubro de 1944 e, em 1947, a Grécia conseguiu a anexação do Dodecaneso, até essa época em poder dos italianos.
Mais uma vez, o destino da Grécia vai ser determinado pelas Grandes Potências. Através de um acordo firmado entre os dois, o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill – que desejava a reintegração do rei Georges I ao trono da Grécia – e o líder soviético, Joseph Stalin, foi determinado que a União Soviética teria predominância sobre a Romênia, e, em troca, na Grécia a predominância seria inglesa. Ao que parece, por fidelidade a esse acordo, Stalin não deu apoio aos comunistas gregos que, no outono de 44, com a capitulação dos alemães, quiseram lutar pela posse do poder.
Na véspera do Natal de 1944, Winston Churchill voa para Atenas numa tentativa fracassada de solução para o problema. Persuade, então, o rei Georges II a não voltar para a Grécia aceitando a regência do arcebispo Damaskinós (Δαμασκηνός) para, em seguida realizar um plebiscito. Realizado o plebiscito, sai vitorioso o rei Georges II, que volta para Atenas onde morre seis meses depois sendo substituído por seu irmão, Paulo.
Exatamente como ocorreu durante a Revolução de 21 e a Primeira Guerra Mundial, uma grande crise nacional divide as forças de resistência que, além de combaterem as forças de ocupação do Eixo, lutam pelo poder no pós–guerra. No último ano da ocupação alemã, parecia que as divergências entre elas iriam terminar. Pouco antes da libertação, formou-se um tipo de governo – o assim chamado “governo da montanha” (Κηβέρνηση του Βουνού) - apoiado por um grande número de integrantes das forças de resistência. Os membros do governo que tinham fugido para o Egito por ocasião do ataque alemão entraram em acordo com o governo constituído na Grécia e formaram um governo de união nacional.
Entretanto, os membros desse governo de coalizão nunca chegaram a um acordo quanto ao estabelecimento de um programa comum. Assim, em dezembro de 1944, as forças do EAM/ELAS e as do EDES se defrontaram em Atenas. O EDES, embora em bem menor número do que seu rival, gozava, no entanto, da proteção das autoridades britânicas, que temiam a tomada do poder pelos comunistas.
A conferência de Varkiza, realizada em fevereiro de 45, dá uma trégua à luta entre direita e esquerda. Essa trégua, no entanto, durou pouco tempo pois irrompe no país uma terrível guerra civil que duraria 4 anos e deixaria um saldo de milhares de vítimas e um país destruído. Mas o pior é que não resolveu o problema, a unanimidade que o país precisava para poder progredir ainda se faria esperar. Com a penúria deixada pela guerra civil, um grande número de gregos abandona o país em busca de melhores oportunidades de vida e de trabalho.
Durante o governo de Konstantinos Karamanlis (Κωνσταντίνος Καραμανλής), primeiro-ministro no período pós guerra civil, foram criados novos empreendimentos, desenvolveu-se o turismo, assim como a marinha, o Partido Comunista foi legalizado e o exército voltou aos quartéis eliminando, assim, a possibilidade de um outro ataque contra a Turquia.
Entretanto, apesar de todo esse desenvolvimento, o povo ainda estava vivendo uma situação difícil de baixos salários e falta de emprego. Assim, nas eleições parlamentares de 1964, Γεώργιος Παπανδρέου (George Papandréou), presidente do “União do Centro” (Ένωση Κέντρου) partido majoritário, assume o governo. Papandréou, visando a satisfação do povo, toma algumas medidas que o tornam bastante popular: aumenta o preço dos produtos agrícolas, promove uma reforma na educação, etc. Entretanto, quando quis introduzir mudanças também no exército, enfrentou forte resistência do rei Constantino, e renunciou em julho de 1965. À sua renúncia seguiu-se uma nova “crise nacional” que duraria cerca de 2 anos.
Ao cabo de algum tempo, para tentar suplantar a crise, os partidos políticos resolveram realizar novas eleições, que foram marcadas para o dia 21 de abril de 1967. Entretanto, nem chegaram a ser realizadas porque um grupo de oficiais tomaram o poder estabelecendo uma ditadura bastante cruel que só terminou em julho de 1974 quando Konstantino Karamanlis é chamado de seu auto exílio na França para restaurar a democracia em seu país.
Com o apoio popular, o novo governo supera um grande número de dificuldades e realiza um bom trabalho, adotando, inclusive, o dimotikí (δημοτική), a língua praticada pelo povo, como a língua oficial. Alguns meses depois, em novembro de 74, são realizadas novas eleições e Karamanlis é confirmado no cargo. Em dezembro do mesmo ano, promove um referendo popular através do qual, por 69 por cento dos votos, eliminou-se o sistema monárquico e impediu-se a volta do rei Constantino.
Em 1980 é eleito presidente e, em 81, vê realizado seu principal objetivo, a Grécia se torna membro da Comunidade Européia. Neste mesmo ano de 81, são realizadas eleições parlamentares e o PASOK (Πανελλήνιο Σοσιαλιστικό Κίνημα/Movimento Socialista Pan-helênico) obtém uma grande vantagem eleitoral e leva Ανδρέας Παπανδρέου (Andréas Papandreou) filho de Georges, ao cargo de Primeiro-Ministro. Durante quase uma década no poder, não conseguiu realizar todas as reformas que pretendia, mas modernizou o direito de família, adotou o sistema monotônico para a escrita, e se mostrou um hábil político.
Em 1990, novas eleições e, desta vez, com vitória da conservadora Nova República (Νέα Δημοκρατία) levando seu presidente, Κωνσταντίνος Μητσοτάκης (Constantino Mitsotákis), ao cargo de primeiro-ministro. A política econômica praticada por Mitsotákis e, principalmente, sua proposta de privatização em larga escala de empresas estatais, tornaram-no impopular e, em 1993, Papandréou voltou ao poder com quase o mesmo número de votos que obteve em sua primeira vitória eleitoral.
Em 1995, é eleito Presidente da República o Sr. Konstantinos Stefanópoulos (Κωνσταντίνος Στεφανόπουλος), candidato do PASOK, reeleito, no ano 2000, para mais um período de 5 anos.
Em 18 de janeiro de 1996, por motivo de saúde, Papandréou deixou o cargo e foi substituído por Kostas Simítis (Κώστας Σημίτης) que, em setembro do mesmo ano foi confirmado no cargo através das urnas. Tinha como maior objetivo de governo um plano de estabilidade econômica que pudesse ajudar a Grécia a acompanhar a política da Comunidade Européia em sua preparação para adoção da nova moeda. No dia 1 de janeiro de 2002, a Grécia trocou sua unidade monetária. A milenar dracma (δραχμή) foi substituída pelo euro (evrô, em grego).
Em fevereiro de 2004, abdica da Presidência do Pasok e indica o Sr. Georges Papandreou (Γιώργος Παπανδρέου) - na época, Ministro das Relações Exteriores – para substituí-lo no posto. O Sr. Papandreou é eleito pelos seus pares em 08 de fevereiro do mesmo ano.
Em março de 2004 são realizadas eleições gerais das quais sai vencedor, por uma boa margem de votos, o partido conservador Νέα Δημοκρατία (Nea Dimocratia)levando seu Presidente, o Sr. Konstantinos Karamanlis (Κωνσταντίνος Καραμανλής) - sobrinho do ex-presidente – ao cargo de Primeiro Ministro.
Em 8 de fevereiro de 2005, com o apoio dos grandes partidos, o Sr. Károlos Papoúlis (Κάρολος Παπούλης) é eleito Presidente da República grega, em substituição ao Sr. Stefanópoulos.












