Cultura Grega: Dança

A dança sempre desempenhou um papel muito importante na vida dos gregos, e isto desde a mais remota antigüidade. Na Ilíada, Homero já descreve uma dança e a admiração que a movimentação ritmada dos corpos dos jovens heróis provocava em quem a assistia. Segundo Platão, foram os próprios deuses, nossos parceiros na dança, que transmitiram ao homem a percepção prazerosa do ritmo e da harmonia. Em sua República, coloca a dança como uma atividade indispensável à educação tanto do homem quanto da mulher e, no Simpósio, faz Sócrates, não só manifestar seu amor pela dança como também o desejo de executá-la de forma perfeita. E a Mitologia atribui a origem da dança a Réia - mulher de Cronos e mãe do grande Zeus - que a teria ensinado aos Curetes.

Cronos tinha destronado o pai, Urano, e, desde então, temia se ver, por sua vez, destituído do poder por um de seus filhos. Assim, para evitar que tal acontecesse, cada vez que sua mulher tinha um filho, Cronos o engolia. Já tinha engolido vários até que, finalmente, Réia consegue salvar o último, Zeus, dando à luz escondida em uma caverna do monte Ida (hoje Psiloritis), na ilha de Creta. Em seguida, enrolou uma grande pedra em um cueiro e a apresentou para Cronos que, imediatamente, a engoliu pensando tratar-se do filho. Para que o marido não descobrisse seu estratagema, Réia ensinou aos Curetes - meio-deuses armados - uma dança de guerra, que executavam ao redor da entrada da caverna. Os Curetes marcavam o ritmo de sua dança batendo a espada contra seu escudo e essa batida provocava um barulho tão grande que impedia que Cronos ouvisse o choro do recém-nascido Zeus.

A mais antiga fonte histórica da dança grega nos vem da ilha de Creta onde, entre 3.000 a 1400 A.C., floresceu a civilização minóica. Os minóicos cultivavam a música e a dança não apenas como laser mas, e sobretudo, como uma forma de culto aos deuses.

Suas danças eram sempre praticadas em grupo, e não na forma individual que conhecemos hoje, e a formação utilizada era de um círculo aberto, ou fechado, que evoluía em torno de um altar, de uma árvore ou de qualquer outro objeto de culto. Esculturas datadas dos anos 1400 a 1500 A.C. encontradas não só em Creta, mas também na Grécia continental e em Chipre, mostram o círculo da dança sendo executado em torno do tocador da lira.

Por volta do século XV A.C., Creta foi invadida por um povo vindo da Grécia continental e, com toda probabilidade, passou a ser controlada por Micenas. Indubitavelmente, os micênicos foram influenciados pela tradição cretense da dança que passaram, junto com outros elementos culturais, para toda a Grécia.

Com a queda da Grécia sob o domínio romano, os gregos tiveram que se adaptar às novas circunstâncias o que, é lógico, provocou uma mudança de hábitos. Assim, a dança, até então considerada uma atividade formadora tanto do corpo quanto da alma do homem, se converteu em espetáculo ou em diversão para aqueles que a praticavam.

Mesmo sob o domínio romano, as músicas ainda eram cantadas em grego, entretanto, não fazia mais parte intrínseca da dança como anteriormente. Separada dos versos e da música, a dança se converteu em uma pantomima, mas nem por isso perdeu seu grande apelo, principalmente junto ao povo.

Durante o período bizantino, a Igreja Ortodoxa, assim como a Católica, combateu sistematicamente a dança, porém sem nenhuma possibilidade de sucesso. Compreendendo serem inúteis seus esforços no sentido de abolí-la, resolveu, ao contrário, adaptá-la a seus preceitos aceitando plenamente a prática de danças em círculos onde homens e mulheres, sempre separados, executavam movimentos solenemente castos e "no temor de Deus".

Por mais incrível que isso possa parecer, nem mesmo os 400 anos de domínio turco foi capaz de destruir essa cultura milenar. É lógico que a influência, de parte a parte, foi grande, mas os gregos preservaram uma grande parte de suas tradições, língua e dança incluídas. Data, aliás, dessa época, o Xasápico, a dança da guilda dos açougueiros (kasap-oglan) de Constantinopla, ainda dançada nos dias de hoje.

A Grécia é um dos poucos países do mundo que, não só preserva, mas ainda pratica suas danças folclóricas as quais, na verdade, fazem parte da vida diária dos gregos. Muitas das danças atualmente praticadas ainda possuem características em comum com aquelas descritas nos textos mais antigos e, se isso acontece, é porque o grego nunca deixou de praticar suas danças tradicionais.

Atualmente, além das danças tradicionais, praticadas principalmente nas pequenas cidades, temos aquelas originárias da Ásia Menor e que são dançadas nas tavernas. Faz parte desse grupo as chamadas danças Rebéticas: o Xasápico, o Zeibékiko, principalmente. A popularidade dessas danças, não só na Grécia, como no mundo, deve-se sobretudo a dois grandes compositores: Manos Hatzidákis e Mikis Theodorákis. O primeiro compôs as músicas amplamente conhecidas do filme "Nunca aos Domingos" e o segundo a famosíssima "Zorba", música do filme "Zorba, o Grego", baseado na obra homônima de Níkos Kazantzákis.

As Danças

Cada aldeia grega tem sua dança executada sempre acompanhada pela mesma música e cujos versos falam da vida e da história local. São, normalmente, dançadas ao ar livre e dela tomam parte todos os habitantes da aldeia que assim o desejar, sem qualquer restrição nem de sexo, nem de idade. Esses chamados "paniyíri" (πανηγύρι) têm lugar em ocasiões especiais como: no dia da Páscoa, no dia do santo padroeiro, no carnaval, nos casamentos, no dia da festa nacional, etc.

Dentre as danças tradicionais, a mais antiga é o Sirtós (Συρτός) que, ao que tudo indica, era aquela dançada em volta do altar em todas as sagradas liturgias dos gregos antigos. Sua formação é a de um círculo aberto com os dançarinos de mãos dadas e mantendo uma certa distância entre si. De um modo geral, é conduzida por uma mulher que executa, à sua vontade, uma série de volteios e de figuras e é seguida pelos outros participantes, que apenas executam os passos básicos da dança.

Assim como a Igreja Romana, também a Bizantina condenava a dança. Entretanto, percebendo que, devido à sua grande tradição entre os gregos, seria inútil tentar condená-la, aceitava sua prática, contanto que homens e mulheres dançassem sem se tocarem. Essa é a função do lenço usado no Kalamatianós (Καλαματιανός) ,um tipo de Sirtós.

O nome da dança provém da música que sempre a acompanha "O lenço de Kalamata" (Το καλαματιανό μαντίλι), que fala sobre o lenço de seda de Kalamata - cidade do Peloponeso, famosa pela qualidade de sua seda - que um jovem apaixonado deu à sua amada na hora da dança.

O Tsakônico (Τσακώνικος), dança do sul do Peloponeso, tem uma tradição muito antiga. Dizem que descende do Iéranos (Γέρανος), ou "dança de Teseu", que reproduz o percurso seguido pelo grande herói ateniense ao sair do labirinto guiado pelo fio de Ariádne. É uma dança circular na qual os dançarinos seguram fortemente o braço de seus parceiros como se temessem se perder deles.

O Pendozáli (Πεντοζάλης), originário de Creta, é uma dança bélica que, até há pouco tempo, era dançada apenas por homens com todas as suas armas. Atualmente, é dançado por homens e mulheres e é ocasião para que o cabo (aquele que puxa a dança) mostre sua coragem e habilidade na execução de saltos realmente acrobáticos.


O Zonarádico (Ζωναράδικος), também uma dança em círculo na qual os participantes, com as mãos entrecruzadas na frente dos parceiros da esquerda e da direita, executam passos bastante rápidos e saltitantes.





O Tsámico (Τσάμικος), junto com o Kalamatianós, é uma dança pan-helênica que guarda uma estreita ligação com a Revolução de 1821, que libertou a Grécia dos otomanos. Era dançada pelos kléftes (κλέφτες), guerrilheiros gregos que, escondidos nas montanhas, lutavam contra o domínio turco. Com a libertação, espalhou-se por toda a Grécia. É uma dança lenta, pesada e que oferece oportunidade ao cabo - nome que se dá àquele que puxa a dança - de exibir toda sua força, coragem e habilidade na execução de suas evoluções. A função do lenço, no Tsámico, já é diferente daquela do Kalamatianós: serve de ponto de apoio ao cabo para a execução de suas evoluções.

Dentre as danças oriundas da Ásia Menor, aquelas que se fazem acompanhar pelas, assim chamadas, músicas rebéticas, isto é, as que, hoje, são dançadas nas tavernas, temos:

O Zeibékiko (Ζεϊβέκικος) deriva seu nome dos Zeibecks, colonos bizantinos que, por adotarem o islamismo, deixam o Bizâncio e se estabelecem na Ásia Menor. Ao virem para a Grécia acompanhando o grande êxodo de 1922, trouxeram junto sua música e sua dança. No Pireus, onde se estabeleceram, e sob a influência grega, essa música se modifica transformando-se na, assim chamada, música rebética, nome derivado da palavra “ρέμπελος”, rebelde. O Zeibékiko é uma dança rebética executada por uma ou duas pessoas, cada uma por sua vez, que mantém o corpo ereto e a cabeça voltada para baixo olhando para o chão e executa movimentos circulares em torno de si mesmo. Enquanto dança, seu companheiro se mantém agachado e acompanha, com palmas, o ritmo de sua dança. Depois de algum tempo, trocam de lugar, e assim sucessivamente.

O Xasápico (Χασάπικος) é a dança da guilda dos açougueiros do Bizâncio. É dançado por duas, três ou mais pessoas que se colocam lado a lado em linha, com os braços esticados e apoiados no ombro de seus vizinhos. Começa lentamente, com todos os participantes executando apenas os passos básicos. Após alguns instantes, todos executam um certo número de figuras ao comando daquele que puxa a dança. Como no zeibékiko, os dançarinos se mantêm concentrados, com os olhos postos no chão.

A assim chamada dança de Zorba começa com um xasápico bastante lento e, à medida em que a música vai evoluindo, o ritmo se acelera até se transformar em um xasaposérvico bastante rápido. Essa dança, como o próprio nome indica, acompanha a música composta por Mikis Theodorakis para o filme Zorba, o Grego, baseado no romance de Nikos Kazantzákis.

O direito de uso das imagens das danças Pendozális, Zonarádikos e Tsámikos foi gentilmente concedido pelo Corpo de Danças Gregas "Dora Stratou"